Pessoal,
no meu meio lidamos muito com pesquisas. Formais, informais, entrevistas, conversas, por telefone, pessoalmente, assistindo coisas, lendo, ouvindo, tudo é pesquisa de todos os tipos. Então quero deixar registradas aqui algumas observações de uma aula que tive com uma especialista na área (infelizmente vou ter que cometer a gafe de não divulgar o nome dela, esqueci), numa aula de jornalismo e literatura, um tipo de jornalismo que defente a apuração minuciosa e o fim do mito da busca da "verdade", da "imparcialidade" e de tudo o que procure retirar a subjetividade do escritor de um texto. Esses conceitos de alta apuração são fortemente trabalhados através da escrita de perfis, reportagens grandes, textos "Gonzo" (um dia explico)...Bem, lá vai.
A PESQUISA SOCIAL QAULITATIVA acontece através da coleta de dados, pesquisa e apuração, indo a fundo nesta coleta através da descrição densa pelo objeto de estudo (geralmente uma pessoa), feita através do uso determinado de uma entrevista pelo pesquisador. O resultado final é a história de vida, uma visão de trajetória, totalidade. Já a entrevista não é apenas uma conversa, mas uma conversa com propósitos determinados, é uma interação aonde o apurador tem objetivos a atingir, ele estabelece uma conversa com intenção. Tudo é intensão. A posição do jornalista ou pesquisador pressupões sempre dar a máxima voz ao outro, mas ele pode fazer isso de várias formas, dando maior ou menor voz ao outro, dependendo da sua técnica, objetivos e personalidade. Deixo o outro aflorar ou vou dirigindo suas colocações para onde quero?
Não só o que o entrevistado diz, mas sua gesticulação, seus olhares, sua recepção, sua forma de sentar-se, de portar-se, de agir, se fuma, se cruza as pernas, tudo isso importa. Se o entrevistado está falando a verdade é o que menos importa. O que ele expressa, sim, é a mina de ouro do estudante. A subjetividade deste sujeito deve se revelar. Uma biografia como resultado é o fruto de uma história de vida de alguém, uno. Contudo, um perfil é um trabalho macro, que nos remete a um grupo, a uma manifestação coletiva, como o documentário de Jorge Furtado, "Esta não é a minha vida", que conta a história da Noeli para contar a história do Brasil e do brasileiro.
Neste tipo de trabalho a altura, o quanto pesa, que dia nasceu, quantos irmãos tem, onde mora, qual escola estuda, o que come, o nome inteiro, que ônibus pega, se tem namorada, qual sua rotina, tudo isso importa, detalhes e detalhes. O cuidado é para evitar a espetacularização do ordinário e do comum, o que acontece muito em grandes empresas de jornalismo.
Tudo muito básico, mas muito importante
sábado, 17 de maio de 2008
domingo, 4 de maio de 2008
Domingo
Olá,
hoje é domingo, um bom dia para filosofar um pouco...Eu estava vendo o documentário "Quem Somos Nós", dirigido por William Arntz, Betsy Chasse e Mark Vicente. O filme relativiza todos os conceitos e leis sob as quais alicerçamos desde as nossas condutas mais sutís, como expressões e sentimentos, até a nossa rotina diária. A física quântica está descortinando visões de mundo inteiramente novas e negando as certezas da humanidade. Esse ramo da ciência estuda o mundo das possibilidades e o documentário dedica-se a mostrar que, diferente do que pensamos, a realidade, mesmo aquela que parece mais absolutamente verdadeira e imutável, está sujeita ao filtro do nosso cérebro. Para exemplificar isso, é usado como exemplo o fato de os índios que viviam no território brasileiro antes do descobrimento simplesmente não enchergarem as embarcações que já eram visíveis no horizonte pelo fato da completa inexistência deste acontecimento na sua vida. Então, essa é a prova de que cada um de nós cria o mundo em que vive. Na postagem abaixo eu coloquei o texto que fala sobre a relativização do tempo. O tempo é mais um exemplo de que nada é absoluto: o tempo pode se esticar ou reduzir-se conforme vivemos aquele período. Esta é a questão. Tudo é relativo. Podemos também linkar esta perspectiva com o conteúdo do livro O Segredo, que aborda o poder da mente na realização de objetivos. Na verdade, expandindo isto, chegamos na física quântica, que estuda isto a um nível atômico. O átomo, segundo os estudos, é uma partícula condensada com íons pairam, sumindo e aparecendo...Para onde eles vão? Inclusive o núcleo deste átomo, o que até hoje se pensava que fosse algo denso, some e aparece. Isto é revolucionário. A sugestão do filme é passarmos a olhar tudo a nossa volta, incluindo os objetos como mesas e cadeiras, com dúvida e, ao mesmo tempo, lembrando que no nível mais profundo possível, as particulas atômicas, somos todos iguais.
hoje é domingo, um bom dia para filosofar um pouco...Eu estava vendo o documentário "Quem Somos Nós", dirigido por William Arntz, Betsy Chasse e Mark Vicente. O filme relativiza todos os conceitos e leis sob as quais alicerçamos desde as nossas condutas mais sutís, como expressões e sentimentos, até a nossa rotina diária. A física quântica está descortinando visões de mundo inteiramente novas e negando as certezas da humanidade. Esse ramo da ciência estuda o mundo das possibilidades e o documentário dedica-se a mostrar que, diferente do que pensamos, a realidade, mesmo aquela que parece mais absolutamente verdadeira e imutável, está sujeita ao filtro do nosso cérebro. Para exemplificar isso, é usado como exemplo o fato de os índios que viviam no território brasileiro antes do descobrimento simplesmente não enchergarem as embarcações que já eram visíveis no horizonte pelo fato da completa inexistência deste acontecimento na sua vida. Então, essa é a prova de que cada um de nós cria o mundo em que vive. Na postagem abaixo eu coloquei o texto que fala sobre a relativização do tempo. O tempo é mais um exemplo de que nada é absoluto: o tempo pode se esticar ou reduzir-se conforme vivemos aquele período. Esta é a questão. Tudo é relativo. Podemos também linkar esta perspectiva com o conteúdo do livro O Segredo, que aborda o poder da mente na realização de objetivos. Na verdade, expandindo isto, chegamos na física quântica, que estuda isto a um nível atômico. O átomo, segundo os estudos, é uma partícula condensada com íons pairam, sumindo e aparecendo...Para onde eles vão? Inclusive o núcleo deste átomo, o que até hoje se pensava que fosse algo denso, some e aparece. Isto é revolucionário. A sugestão do filme é passarmos a olhar tudo a nossa volta, incluindo os objetos como mesas e cadeiras, com dúvida e, ao mesmo tempo, lembrando que no nível mais profundo possível, as particulas atômicas, somos todos iguais.
Tempo por Dulce Magalhães
Todo dia é dia...
O tempo é a ilusão mais presente em nossa vida. Acreditamos no tempo linear, em 24 horas, em um dia depois do outro. Porém, o tempo é apenas uma forma de ver a realidade. Já aconteceu de você esperar por alguém durante cinco minutos e parecer que se passaram horas? E o contrário, você já teve a sensação que um dia passou voando? Isso demonstra que o tempo depende da forma como o percebemos, não é uma constante, mas uma variável, que é influenciada e influencia nossa percepção. Tempo não é o espaço percorrido pelos ponteiros do relógio. Tempo é a forma como você vive este espaço. Assim, temos que compreender que o relógio, mais que marcar o tempo é um mensageiro, que nos informa a todo instante: menos um...menos um... E a passagem do tempo é irrelevante. O tempo passa para todos, para quem é feliz ou infeliz, para quem busca ou desiste, para quem sabe ou ignora. O importante não é o tempo que passa, mas a forma como você vive este tempo. A grande pergunta que nos pode orientar é - "Como viver este tempo que passa?" Isso vai definir a qualidade dos resultados de vida que estamos alcançando. No mais tudo é pura perda de tempo! Definir o que é prioridade, valor, princípios e sonhos. No mais é fazer valer.
Por Dulce Magalhães
FONTE:
Blog Almanaque do clic RBS
O tempo é a ilusão mais presente em nossa vida. Acreditamos no tempo linear, em 24 horas, em um dia depois do outro. Porém, o tempo é apenas uma forma de ver a realidade. Já aconteceu de você esperar por alguém durante cinco minutos e parecer que se passaram horas? E o contrário, você já teve a sensação que um dia passou voando? Isso demonstra que o tempo depende da forma como o percebemos, não é uma constante, mas uma variável, que é influenciada e influencia nossa percepção. Tempo não é o espaço percorrido pelos ponteiros do relógio. Tempo é a forma como você vive este espaço. Assim, temos que compreender que o relógio, mais que marcar o tempo é um mensageiro, que nos informa a todo instante: menos um...menos um... E a passagem do tempo é irrelevante. O tempo passa para todos, para quem é feliz ou infeliz, para quem busca ou desiste, para quem sabe ou ignora. O importante não é o tempo que passa, mas a forma como você vive este tempo. A grande pergunta que nos pode orientar é - "Como viver este tempo que passa?" Isso vai definir a qualidade dos resultados de vida que estamos alcançando. No mais tudo é pura perda de tempo! Definir o que é prioridade, valor, princípios e sonhos. No mais é fazer valer.
Por Dulce Magalhães
FONTE:
Blog Almanaque do clic RBS
Meu reino por um banho quente
Eu não gosto da música do Ney Matogrosso. Escuto as passagem e nada me causam. Mesmo assim, admiro o seu trabalho e em todas as suas aparições acho dele uma pessoa que se faz valer a pena. A arte matrogrossiana não me agrada por que sou uma ignorante, tenho perfeita consciência disso, pois noto ali loucuras conceituais que poderiam ser fantásticas. Esse mês o Ney escreveu um artigo para a Revista Piauí, que me chamou atenção, aqui está para vocês.
NEY MATOGROSSO
1
Outro dia procurei Bela Vista no Google Earth e não encontrei. A cidade onde eu nasci não está no mapa. Achei o rio Apa, que divide a cidade, mas Bela Vista, no Mato Grosso do Sul, não tem. Eu saí de lá bem pequeno. Meu pai era oficial da Aeronáutica e vivíamos nos mudando de cidade. Minha lembrança mais remota sou eu montado em cima de um jabuti. Eu tinha uns 3 anos e ficava passeando em cima dele, que era imenso. O jabuti foi meu primeiro velocípede. Quando era criança, eu dizia que ia ser cantor. Depois deixei isso de lado. Os meninos mexiam comigo, porque eu falava muito fininho. Eu achava que isso era um defeito, e me esqueci que queria ser cantor. Tinha 15 anos quando fui à fazenda do meu avô. Como nunca tinha participado de caçada, fui a uma com um grupo. No mato, um bando de macacos passou perto de nós. Os homens viraram bichos, atiraram nos macacos para treinar pontaria, só por gosto. Vi uma fêmea agitando os braços, como se dissesse “não façam isso!” e eles atiravam sem parar. Mataram as mães, os filhotes caíram no chão, e eles atiravam nos filhotes. Entendi do que o homem é capaz. Se tivesse que escolher entre o bem-estar do planeta e o da humanidade, eu ficaria com o planeta. Sempre soube que eu era artista, mas não sabia o que ia ser. Vivia em conflito porque meu pai era militar e não queria saber de filho artista. Fiz teatro escondido no colégio. Passei dois anos na Aeronáutica. Disciplina eu já tinha, porque meu pai me obrigava a ser disciplinado em tudo, e hoje agradeço por ele ter me criado assim. No quartel, fui obrigado a viver num mundo masculino. Impus os meus limites, mas os colegas queriam extrapolar, passar a mão na bunda. Tive que sair na porrada três vezes, coisa que eu nunca tinha feito antes. Eu tinha horror a homossexuais, era um fantasma que me assombrava. O dormitório do quartel ficava fora do prédio principal. Numa noite quente, sem conseguir dormir por causa do calor, saí para uma varanda. Ali, vi dois remadores do quartel, homens másculos, abraçados. Um estava sentado na mureta e o outro, em pé, encaixados num abraço que ia muito além de sexo. Tinha um amor ali. Era como se eles estivessem dentro de uma bolha, desligados do mundo. Vislumbrei o que eu temia. Pensava que um homem tinha que virar mulherzinha para namorar outro homem, e esse era o meu pavor. Quando vi dois homens fortes completamente entregues um ao outro, tive um choque. Me comovi com a verdade daquele amor, mas fiquei profundamente incomodado. Talvez ali eu tenha admitido a possibilidade de um outro caminho. Quando me lembrava dessa cena, pensava: nunca vou fazer só por fazer; vou fazer com quem eu encontre a possibilidade daquele amor. Trabalhei com recreação de crianças terminais que sofriam de câncer. Foi o único trabalho careta de que gostei na vida. Eu era o brinquedo delas, cantava para elas. Elas montavam em mim, fazíamos teatro, pintura, desenho. Num dia, uma criança estava brincando comigo e, no dia seguinte, ela não estava mais. Eu tive a noção do irreversível, da passagem do tempo, da finitude. Ali conheci a morte de perto. Muito depois, meu grande amor morreu nos meus braços. Eu lhe dizia: “Por favor, vai. Não se esforce mais.” Quando não tinha onde cair morto, aprendi de tudo. Sei costurar e cozinhar. Uma vez, fiz uma calça para mim. Peguei um jeans bem velho, descosturei ele todo e usei como molde. Comprei um pano, cortei e costurei à mão. Me orgulho de saber me virar. Se estourasse uma bomba e destruísse tudo, a única coisa construída pelo homem de que eu sentiria falta é um banho quente. Não gosto de televisão, de microondas, de celular, nem de internet. Um dia desses, meu telefone estava em cima de uma televisão, e quando tocou, a televisão saiu do ar. Pensei: se faz isso com a televisão, o que fará com o meu cérebro? O silêncio me alimenta a criatividade. Eu fico aberto e as idéias chegam. Não ando em bando. Gosto de estar sozinho, sou recatado. Carnaval não é comigo. Minha festa é no palco. Tomei o Daime durante um ano e meio. Me serviu como um canal de autoconhecimento. Esse ano e meio me valeu mais do que dez anos de terapia. Se a vida é uma onda, ainda estou longe da praia, tenho muito fôlego para viver. Um dia eu vi um velhinho aqui na esquina de casa. Ele tinha uns 80 anos e estava só de sunga e tênis. Era todo enrugadinho, mas tinha um tônus muscular incrível. Eu estava em casa largado no sofá, reclamando de dor no corpo, mas a partir desse dia resolvi me mexer. Comecei a fazer musculação e alongamento, e nunca mais parei. Já me pediram muito para ser porta-estandarte de movimentos gays, mas sempre me recusei. Sou um defensor das liberdades, mas entendo que esse movimento é muito levado pela febre do consumo. É justamente disso que se trata: de dinheiro. É uma indústria que tem um ótimo consumidor. Essa onda gay não é um avanço humano, é um avanço de mercado. E não quero ser estandarte de nada. Eu quero é ter liberdade.
NEY MATOGROSSO
1
Outro dia procurei Bela Vista no Google Earth e não encontrei. A cidade onde eu nasci não está no mapa. Achei o rio Apa, que divide a cidade, mas Bela Vista, no Mato Grosso do Sul, não tem. Eu saí de lá bem pequeno. Meu pai era oficial da Aeronáutica e vivíamos nos mudando de cidade. Minha lembrança mais remota sou eu montado em cima de um jabuti. Eu tinha uns 3 anos e ficava passeando em cima dele, que era imenso. O jabuti foi meu primeiro velocípede. Quando era criança, eu dizia que ia ser cantor. Depois deixei isso de lado. Os meninos mexiam comigo, porque eu falava muito fininho. Eu achava que isso era um defeito, e me esqueci que queria ser cantor. Tinha 15 anos quando fui à fazenda do meu avô. Como nunca tinha participado de caçada, fui a uma com um grupo. No mato, um bando de macacos passou perto de nós. Os homens viraram bichos, atiraram nos macacos para treinar pontaria, só por gosto. Vi uma fêmea agitando os braços, como se dissesse “não façam isso!” e eles atiravam sem parar. Mataram as mães, os filhotes caíram no chão, e eles atiravam nos filhotes. Entendi do que o homem é capaz. Se tivesse que escolher entre o bem-estar do planeta e o da humanidade, eu ficaria com o planeta. Sempre soube que eu era artista, mas não sabia o que ia ser. Vivia em conflito porque meu pai era militar e não queria saber de filho artista. Fiz teatro escondido no colégio. Passei dois anos na Aeronáutica. Disciplina eu já tinha, porque meu pai me obrigava a ser disciplinado em tudo, e hoje agradeço por ele ter me criado assim. No quartel, fui obrigado a viver num mundo masculino. Impus os meus limites, mas os colegas queriam extrapolar, passar a mão na bunda. Tive que sair na porrada três vezes, coisa que eu nunca tinha feito antes. Eu tinha horror a homossexuais, era um fantasma que me assombrava. O dormitório do quartel ficava fora do prédio principal. Numa noite quente, sem conseguir dormir por causa do calor, saí para uma varanda. Ali, vi dois remadores do quartel, homens másculos, abraçados. Um estava sentado na mureta e o outro, em pé, encaixados num abraço que ia muito além de sexo. Tinha um amor ali. Era como se eles estivessem dentro de uma bolha, desligados do mundo. Vislumbrei o que eu temia. Pensava que um homem tinha que virar mulherzinha para namorar outro homem, e esse era o meu pavor. Quando vi dois homens fortes completamente entregues um ao outro, tive um choque. Me comovi com a verdade daquele amor, mas fiquei profundamente incomodado. Talvez ali eu tenha admitido a possibilidade de um outro caminho. Quando me lembrava dessa cena, pensava: nunca vou fazer só por fazer; vou fazer com quem eu encontre a possibilidade daquele amor. Trabalhei com recreação de crianças terminais que sofriam de câncer. Foi o único trabalho careta de que gostei na vida. Eu era o brinquedo delas, cantava para elas. Elas montavam em mim, fazíamos teatro, pintura, desenho. Num dia, uma criança estava brincando comigo e, no dia seguinte, ela não estava mais. Eu tive a noção do irreversível, da passagem do tempo, da finitude. Ali conheci a morte de perto. Muito depois, meu grande amor morreu nos meus braços. Eu lhe dizia: “Por favor, vai. Não se esforce mais.” Quando não tinha onde cair morto, aprendi de tudo. Sei costurar e cozinhar. Uma vez, fiz uma calça para mim. Peguei um jeans bem velho, descosturei ele todo e usei como molde. Comprei um pano, cortei e costurei à mão. Me orgulho de saber me virar. Se estourasse uma bomba e destruísse tudo, a única coisa construída pelo homem de que eu sentiria falta é um banho quente. Não gosto de televisão, de microondas, de celular, nem de internet. Um dia desses, meu telefone estava em cima de uma televisão, e quando tocou, a televisão saiu do ar. Pensei: se faz isso com a televisão, o que fará com o meu cérebro? O silêncio me alimenta a criatividade. Eu fico aberto e as idéias chegam. Não ando em bando. Gosto de estar sozinho, sou recatado. Carnaval não é comigo. Minha festa é no palco. Tomei o Daime durante um ano e meio. Me serviu como um canal de autoconhecimento. Esse ano e meio me valeu mais do que dez anos de terapia. Se a vida é uma onda, ainda estou longe da praia, tenho muito fôlego para viver. Um dia eu vi um velhinho aqui na esquina de casa. Ele tinha uns 80 anos e estava só de sunga e tênis. Era todo enrugadinho, mas tinha um tônus muscular incrível. Eu estava em casa largado no sofá, reclamando de dor no corpo, mas a partir desse dia resolvi me mexer. Comecei a fazer musculação e alongamento, e nunca mais parei. Já me pediram muito para ser porta-estandarte de movimentos gays, mas sempre me recusei. Sou um defensor das liberdades, mas entendo que esse movimento é muito levado pela febre do consumo. É justamente disso que se trata: de dinheiro. É uma indústria que tem um ótimo consumidor. Essa onda gay não é um avanço humano, é um avanço de mercado. E não quero ser estandarte de nada. Eu quero é ter liberdade.
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